domingo, 3 de dezembro de 2023

SONO: UM GRANDE MISTÉRIO DA HUMANIDADE

 

SONO: UM GRANDE MISTÉRIO DA HUMANIDADE

 

JOELSO PERALTA, Nutricionista, Professor, Palestrante, Mestre em Medicina: Ciências Médicas e Doutorando: PPG Farmacologia e Terapêutica - UFRGS.




Olá pessoal, tudo bem?

Você sabe a importância do sono? Quer dizer, normalmente as pessoas acordam, comem, trabalham e dormem, mas já se perguntaram por que dormimos? Existem algumas teorias para explicar a importância do sono que vão desde preservação da espécie (“menos ativos” chamariam menos atenção de predadores) até regeneração do corpo e da mente. Por outro lado, animais adormecidos são vulneráveis aos predadores, então melhor “dormir com um olho aberto e outro fechado”, não é mesmo? De fato, o sono deve ser algo muito importante, pois passamos 1/3 de nossa vida dormindo. Em outras palavras, se você tem 90 anos, então 30 anos passou dormindo, não é impressionante? Beleza, mas se é tão importante, por que algumas pessoas têm insônia? Quais são as consequências da privação do sono?

Enfim, participei de uma roda de conversa científica, bastante descontraída, no dia 30/11/2023, sobre o SONO. O evento chamava-se “Café com Conteúdo”, promovido pela farmácia de manipulação Bellacqua (www.bellacqua.com.br; @bellacquafarma). Foi bem legal, onde estavam presentes minha esposa e nutricionista Jéssica (@nutrijessikunsler) e minhas ex-alunas, também nutris, as quais orientei os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs): Tainá (@tainanutriquimica) e Núbia (@nubiaruduit.nutri). Quero, portanto, discutir o sono e a privação do sono nesta postagem, mas alguns diriam: o sono é um dos grandes mistérios da humanidade.

 

O QUE É SONO?

 

Segundo Giuseppe Barbato (REM Sleep: An Unknown Indicator of Sleep Quality. Int J Environ Res Public Health 9;18(24):12976, 2021; doi: 10.3390/ijerph182412976), a redução do sono é uma situação que ocorre, atualmente, na sociedade moderna e possui grande impacto na qualidade de sono das pessoas.

De forma bem simplificada, sono é o estado de supressão da vigília, onde observa-se a desaceleração do metabolismo, relaxamento muscular e diminuição da atividade sensorial. Porém, não é tão simples assim, pois o cérebro, durante o sono, se mantém ativo e, até mesmo, em grande atividade cerebral processando tudo que ocorreu durante o dia.

O sono, portanto, não é perda de tempo, afinal até as baleias dormem e não se afogam (rs). Sim, estamos falando de animais com 200 toneladas e 100 m de comprimentos que dormem nos oceanos e não em uma confortável cama!

Deixa-me explicar melhor:

Dormir é algo tão importante para a sobrevivência das espécies que até baleias, que são grandes mamíferos, desenvolveram métodos para dormir embaixo d’água ou na superfície. Isso é bastante curioso, pois estes cetáceos (animais marinhos pertencentes a classe dos mamíferos) precisam ir até a superfície para respirar, então como dormem na água? Bem, existem algumas explicações (não sou especialista em baleias, OK?), mas parecem que possuem maior tolerância ao dióxido de carbono (CO2) e utilizam melhor o oxigênio (O2) a cada inspiração quando comparados aos animais terrestres. Durante o “cochilo” da baleia, também ocorre economia de energia, onde seu movimento é garantido pela cauda. Além disso, baleias não dormem como os seres humanos, ou seja, fazem pequenos ciclos de 20 a 30 minutos ou, em outras situações, dormem entre 1 e 3 horas. Além disso, as baleias mantêm certa consciência e estado de alerta durante o sono (um hemisfério cerebral “desliga”, enquanto que o outro fica em “alerta”), pois assim evitam possíveis perigos dos oceanos. Então, sim, as baleias jubarte, golfinhos e orcas dormem (https://animalqueries.com/pt/how-do-whales-sleep/; https://meusanimais.com.br/como-as-baleias-dormem-sem-se-afogar/).

 

Voltando aos seres humanos, deixa-me resumir a importância do sono:

 

Conservação (“efeito poupador”) de energia celular;

Restauração do corpo;

Reorganização do cérebro (neuroplasticidade);

Consolidação da memória e aprendizado;

Produção e secreção de peptídeos e hormônios, como o hormônio do crescimento (GH) e a melatonina;

Limpeza do corpo e da mente de substâncias inúteis ou que pudessem ser nocivas à saúde.

 

Peraí, a qualidade do sono melhora a saúde física e mental:

 

Saúde cardiovascular;

Saúde mental;

Saúde imunológica;

Saúde reprodutiva;

Regulação hormonal.

 

O QUE É CIÊNCIA SABE SOBRE O SONO?

 

A CRONOBIOLOGIA é a ciência que estuda os ritmos biológicos e, entre eles, obviamente está o ciclo sono-vigília. Quanto ao sono, especificamente, existem 5 estágios, sendo que nos 4 primeiros temos os estágios “Não REM” (NREM) e, em seguida, entramos no estágio “REM”. REM significa Rapid Eyes Movement ou Movimento Rápido dos Olhos. Vejamos, rapidamente, os 5 estágios do sono:

ESTÁGIO 1 (cerca de 5% do tempo total de sono): ocorre transição do acordado para dormindo, com leve relaxamento corporal;

 

ESTÁGIO 2 (45-55% do tempo): sono leve, o corpo relaxa ainda mais, ocorre leve redução da temperatura corporal, a frequência cardíaca diminui, a respiração fica lenta;

 

ESTÁGIO 3 (cerca de 5% do tempo): transição para sono profundo ou início do sono profundo;

 

ESTÁGIO 4 (cerca de 12-15% do tempo): sono profundo, onde temos a liberação de peptídeos e hormônios, bem como restauração e recuperação do corpo, órgãos e mente;

 

ESTÁGIO 5 (20-25% do tempo total): sono REM, descanso total, redução da temperatura corporal, com intensa atividade cerebral, onde ocorrem os sonhos (você deve ter sonhado, mas não lembra).

 

Claro, estes 5 estágios ficam se repetindo durante todo o período que dormimos, ou seja, um processo cíclico. Ainda, a temperatura corporal, especialmente no sono REM, diminui (e não aumenta), onde ocorre a elevada atividade cerebral e o restante do corpo pode perder a habilidade de regulação da temperatura (geralmente 0,5 a 0,6ºC, pode chegar a 1ºC). Claro, a baixa temperatura também permite a conservação de energia durante o sono, devido menor movimentação/locomoção.  

 

Prof., o que são ritmos biológicos?

 

São fenômenos que se repetem de tempos em tempos, portanto, ocorrem de forma cíclica. O RITMO CIRCADIANO (que ocorre em 24 horas) é um ritmo biológico. Como exemplos, temos o ciclo sono-vigília, o controle da temperatura corporal e a secreção de diferentes peptídeos e hormônios.

Aliás, pouca gente sabe, mas o ritmo circadiano não é exatamente de 24h, ou seja, pode oscilar de 20 à 28h. Neste sentido, chamados de “RITMOS INFRADIANOS” aqueles que ultrapassam 24h, podendo chegar em 28h. Por exemplo, a curiosa hibernação do urso polar é um ritmo infradiano, onde os animais dormem acima de 24 horas (e, até mesmo, meses). Claro, este fato é alcançado pela predominância de tecido adiposo marrom (TAM), que garante a termogênese no período sem alimentação. Aqueles ritmos menores que 24h são chamados de “RITMOS ULTRADIANOS”, podendo ocorrer em 20h ou menos. Como exemplo, destaca-se as ondas cerebrais, os batimentos cardíacos e a secreção hormonal.

Embora algumas pessoas possuam um ritmo biológico ou “relógio biológico”, estudados na cronobiologia, cabe lembrar que cada indivíduo possui seu próprio “CRONOTIPO”. Ou seja, cada pessoa funciona diferente das demais. Por exemplo, algumas pessoas funcionam mais, rendem mais, trabalham melhor, estudam eficazmente, pela manhã; enquanto outras preferem à tarde ou noite. Você rende mais pela manhã ou é uma pessoa noturna?

 

Então, quer dizer que não preciso de 8h de sono regularmente, devido meu cronotipo?

 

Bem, não é bem assim. Embora o cronotipo identifique o período do dia que você rende melhor (e existem muitas influências e variáveis nessa informação), a privação do sono não acompanha essa explanação. Peraí, vou te explicar melhor a seguir.

 

O QUE É PRIVAÇÃO DO SONO E QUAIS SÃO SUAS CONSEQUÊNCIAS À SAÚDE?

 

Todos nós precisamos de 7 a 9h de sono diariamente, onde a falta de sono é cumulativa e perigosa à saúde. Pessoas que dormem pouco (6h, 5h ou apenas 4h por noite) ficando “devendo” um sono regenerador.

Se você dorme apenas 6h por noite de segunda a sexta-feira (e deveria dormir 8h, como a maioria das pessoas) fica “devendo” 10h de sono. Talvez você recompense no sábado e domingo, adicionando as horas extras de sono. Caso ocorra, parece que o corpo e a mente conseguem adaptar-se, reestabelecendo suas funções a fim de manter a saúde. Porém, se você não recupera as horas de sono “perdidas” durante a semana, ocorrem prejuízos de saúde na ordem física e mental, como veremos a seguir:

 

Fadiga;

Sonolência durante o dia e preguiça;

Irritabilidade, afeta o humor;

Falta de concentração;

Cefaleia (dor de cabeça);

Déficit cognitivo;

Baixo rendimento escolar/estudantil;

Tendência para o consumo de estimulantes, p.ex.: cafeína.

 

Porém, existem estudos associando a privação do sono com doenças:

 

Queda da imunidade, favorecendo as doenças oportunistas;

Desenvolvimento de diabetes tipo 2 (DM2), associado a resistência insulínica;

Sobrepeso e obesidade;

Inflamação, deixando a “porta” aberta às doenças;

Desajuste hormonal, afinal existe íntima relação entre o núcleo supraquiasmático (SCN), a glândula pineal, tálamo e hipotálamo;

Risco para depressão, transtornos mentais, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e hipertensão arterial. 

 

Existem outras preocupações decorrentes da privação do sono:

 

Risco de acidentes automobilísticos com trauma ou óbito;

Risco de acidentes no trabalho com trauma ou óbito;

 

Os principais distúrbios do sono são: insônia, narcolepsia, apneia do sono e terror noturno.

Insônia é caracterizada pela dificuldade em ingressar no sono ou se manter no mesmo por um período contínuo. Neste sentido, a pessoa fica fatigada e apresenta dificuldade de concentração e prejuízos na memória e aprendizado. Durante o dia, a pessoa fica indisposta, podendo sofrer acidentes de trabalho ou lazer. As causas são inúmeras, mas podem ser emocionais, resultantes do estresse ou mesmo de ordem fisiológica, endócrina ou neurológica.

 A narcolepsia refere-se ao sono súbito e incontrolável ao longo do dia, ou seja, a pessoa simplesmente “apaga”. Ela pode “apagar” sentada, deitada e, até mesmo, em pé. Esse fato gera preocupação em decorrência de acidentes automobilísticos ou nas academias de ginástica.

Apneia do sono ou apneia noturna são as paradas curtas e repetitivas da respiração, que ocorrem durante o sono. Podem ou não estar associadas à obesidade. De qualquer forma, o sono está prejudicado, mas essa disfunção, quando envolve o sistema respiratório, pode ser fatal e necessita de tratamento especializado (apeia obstrutiva do sono).

Por fim, o terror noturno é uma manifestação severa do sonambulismo, onde o indivíduo se movimenta durante o sono, o que pode ser aterrorizante para alguns expectadores. Essas pessoas, geralmente, não se lembrar dos episódios.

 

Dica de leitura:

Kathy L Nelson et al. Sleep quality: An evolutionary concept analysis. Nurs Forum 57(1):144-151, 2022; doi: 10.1111/nuf.12659.

Dica de leitura:

James N Cousins and Guillén Fernández. The impact of sleep deprivation on declarative memory. Review Prog Brain Res 246:27-53, 2019; doi: 10.1016/bs.pbr.2019.01.007.

James N Cousins et al. Multi-Night Sleep Restriction Impairs Long-Term Retention of Factual Knowledge in Adolescents. J Adolesc Health 65(4):549-557, 2019; doi: 10.1016/j.jadohealth.2019.04.030.

Pim R. A. Heckman et al. A brief period of sleep deprivation negatively impacts the acquisition, consolidation, and retrieval of object-location memories. Neurobiol Learn Mem 175:107326, 2020; doi: 10.1016/j.nlm.2020.107326.

Pinqiu Chen et al. The Devastating Effects of Sleep Deprivation on Memory: Lessons from Rodent Models. Review Clocks Sleep 15;5(2):276-294, 2023; doi: 10.3390/clockssleep5020022.

Syed W Mali and Joseph Kaplan. Sleep deprivation. Prim Care 32(2):475-90, 2005; doi: 10.1016/j.pop.2005.02.011.

Jean-Philippe Chaput et al. The role of insufficient sleep and circadian misalignment in obesity. Review Nat Rev Endocrinol 19(2):82-97, 2023; doi: 10.1038/s41574-022-00747-7.

Monika Sejbuk et al. Sleep Quality: A Narrative Review on Nutrition, Stimulants, and Physical Activity as Important Factors. Nutrients 2;14(9):1912, 2022; doi: 10.3390/nu14091912.

 

COMO O SONO É REGULADO?

 

Essa é uma pergunta interessante, que requer um “pouquinho” de conhecimento neurobiológico.

Quando a luz atinge a retina, informações via fotorreceptores chegam ao núcleo supraquiasmático (SCN), que é considerado o “centro primário de regulação dos ciclos circadianos” (24h). Este “marca-passo central” (o SCN) reduz a produção de melatonina e você se mantém acordado. Por outro lado, na ausência de estímulo luminoso, o SCN estimula a glândula pineal para produzir melatonina, que é o “hormônio do sono”. Esse é um processo bem primitivo do ser humano, onde o pôr-do-sol indicava que as famílias deveriam se recolher para dormir.

Claro, existem outros genes que estimulam ciclo sono-vigília, como CLOCK (clock controlled genes ou relógio controlado por genes) e BMAL1 (brain and muscle Arnt-like protein-1 ou proteína-1 cerebral e do músculo ligada ao Arnt). Estes regulam o ciclo circadiano (relógio biológico). Além disso, o SCN também envia informações ao córtex pré-frontal, hipotálamo e tronco cerebral, que pode inibir ou estimular a produção e secreção de peptídeos e hormônios, incluindo a melatonina. Uma alteração ou mutação nessa via SCN-regiões cerebrais pode perturbar seu tranquilizador sono. A melatonina, cabe dizer, também possui funções antioxidantes e imunomoduladoras. Por fim, atualmente estuda-se o papel de diferentes genes circadianos: Period (Per1 e 2), Cryptochrome (Cry1 e 2), Rev-erb (Reverb-alpha e beta) e Ror (Ror alpha, beta e gamma) (Alexandra J. Trott; Jerome S. Menet. Regulation of circadian clock transcriptional output by CLOCK:BMAL1. PLOS Genetics 1-34, 2018).

 

LEGAL PROFESSOR! QUAIS FATORES PODEM PREJUDICAR NOSSA NOITE DE SONO?

 

Bem, se desconsiderarmos os fatores endógenos (polimorfismos, mutações, baixa atividade de proteínas, etc.), então seria interessante verificar quais fatores exógenos (externos) prejudicam a qualidade do sono:

 

Apneia do sono;

Excesso de estímulo luminoso na hora de dormir (smartphone, tablet, notebook, TV);

Excesso de barulhos, ruídos;

Estresse emocional;

Ambiente não propício (muito quente, muito frio);

Ingestão de bebidas alcoólicas;

Ingestão excessiva de cafeína e outros estimulantes;

Jet lag e jet lag social (dependente da troca de fuso horário).

 

Dica de leitura:

Logan Schneider. Neurobiology and Neuroprotective Benefits of Sleep. Continuum (Minneap Minn) 26(4):848-870, 2020; doi: 10.1212/CON.0000000000000878.

Clayton Vasey et al. Circadian Rhythm Dysregulation and Restoration: The Role of Melatonin. Nutrients 30;13(10):3480, 2021; doi: 10.3390/nu13103480.

 

Aliás, sobre o Jet lag (jetlag) cabem comentários adicionais:

 

O chamado “jetlag” é uma experiência comum entre as pessoas que viajam para lugares com fusos horários diferentes e experimentam sensações de confusão quanto a hora de acordar e dormir e, até mesmo, para a realização de atividades diárias, incluindo alimentação e ato de defecar (evacuações). O “jetlag social” é semelhante, mas não depende de viagens para outros países, mas, sim, discrepância no tempo de sono em relação as nossas atividades diárias ou cotidianas, decorrentes de nossas atividades profissionais ou de lazer. Por exemplo, dormir mais tarde nos finais de semana porque esteve “na balada” quinta e/ou sexta-feira. Neste sentido, sua segunda-feira parece “andar em câmera lenta”, você tem dificuldade para acordar e sente-se preguiçoso no trabalho ou estudo.

Neste sentido, cabe a pergunta:

O “jetlag social” pode estar desalinhando ou dessincronizando seu “relógio biológico” ao ponto de causar doenças?

É uma pergunta que você deveria fazer ao especialista do sono, mas posso dizer: quanto menor for o “jetlag social”, melhor seria a saúde do indivíduo.

 

PROF., ALGUMA DICA PARA DORMIR BEM?

 

Claro, tenho várias dicas, o que podemos chamar de Higiene do Sono:


Estabeleça uma rotina de atividades diárias: defina seus horários de acordar e dormir, bem como atividade física regular;

Prepare o ambiente: durma em lugar confortável, agradável, silencioso, escuro. Não fique dormindo em lugares diferentes (quarto, sala, escritório) todos os dias;

Vá dormir, não comer: evite comer muito próximo da hora de dormir, especialmente seu possui doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). Aliás, cafeína e outros estimulantes, bem como refrigerantes tipo cola, perturbam a qualidade do sono;

Evite bebidas alcoólicas: as pessoas acreditam que bebidas alcoólicas (cerveja, vinho, whisky, etc.) melhoram a qualidade do sono, mas isso é um mito. Essas bebidas relaxam momentaneamente seu corpo, mas existem “efeitos rebotes”. O álcool afeta o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável pelo comportamento humano, planejamento e tomada de decisão. Além disso, o álcool afeta o cerebelo e a biossíntese de neurotransmissores (dopamina, serotonina, norepinefrina e relação GABA-glutamato). Por motivos similares, também deve-se evitar o uso de drogas ilícitas;

Desligue a luz: evite a luz azul do computador ou celular, desligue a TV com seu estímulo luminoso que prejudica secreção da melatonina. Prefira ler um bom livro relaxante (Ops, talvez não, pois vai ligar a luz do abajur para ler, prejudicando a melatonina).

 

Dica de leitura:

Navya Baranwal et al. Sleep physiology, pathophysiology, and sleep hygiene. Prog Cardiovasc Dis 77:59-69, 2023; doi: 10.1016/j.pcad.2023.02.005.

 

Gostou? Se compartilhar, favor citar a fonte: www.peraltanutri.blogspot.com (@peraltanutri).

terça-feira, 28 de novembro de 2023

BIOHACKERS E NUTRIÇÃO ESPORTIVA, QUAL RELAÇÃO?

 

BIOHACKERS E NUTRIÇÃO ESPORTIVA, QUAL RELAÇÃO?

JOELSO PERALTA, Nutricionista, Professor, Palestrante, Mestre em Medicina: Ciências Médicas e Doutorando: PPG Farmacologia e Terapêutica - UFRGS.




Olá pessoal, tudo bem?

      

O ex-pugilista Dana White, com 8,6M seguidores no Instagram, diz se sentir um “super-herói” após obter grande transformação corporal através de jejum de água de 86 horas (3,5 dias). Segundo White, ele segue orientações de um biológico e biohacker, que diz que jejum com água reduz risco de câncer, Alzheimer e outras doenças. Em seguida, observei alguns profissionais de saúde, incluindo nutricionistas e profissionais de educação física, hipervalorizando o termo BIOHACKER, afinal “somos hackers de nossa própria biologia”, dizem. Pois bem, muitas destas pessoas se quer sabem a definição do termo e, muito menos, as consequências do BIOHACKING. Portanto, deixa-me explicar o assunto e desmistificar uma relação absurda que querem estabelecer com a nutrição esportiva.

 

O QUE SÃO BIOHACKERS?

 

Os biohackers são hackers da própria biologia (tradução livre), ou seja, pessoas que buscam meios de otimizar o funcionamento de seus organismos. Por vezes, são chamados de “biólogos de garagem”, pois eles aprendem sozinhos, são autodidatas, trabalham em suas casas ou porões, não estão afiliados a nenhuma Instituição de Ensino Superior e não seguem regulamentações governamentais. Alguns, mas não todos, possuem formação superior (mas raramente encontrará um mestre ou doutor entre os biohackers). Outros se dizem “trans-humanos”, ou seja, usam a biologia e informática para contornar as imperfeições humanas através da biotecnologia, formando seres humanos "perfeitos".

Biohacking são as estratégias, métodos, técnicas e procedimentos, não convencionais e, muitas vezes, sem quaisquer respaldos científicos, usadas pelos biohackers. Trata-se, na realidade, de uma mescla, mistura, de técnicas da biologia com informatização hacker.

Essas pessoas, os biohackers, acreditam que podem criar “super-humanos” com implantes de chips (no cérebro e corpo), injeções com substâncias das mais variadas possíveis (combinação de hormônios, geralmente), manipulação genética, jejum, dietas mirabolantes, enfim, tudo que você possa ou não imaginar.

O biohacking tem duas vertentes, basicamente: aqueles que buscam uma vertente interventiva ou não interventiva. Na primeira, busca-se melhorar ou otimizar seu próprio corpo com implantes a partir de leituras genéticas. Na segunda, usa-se elementos externos para melhorar ou otimizar a performance humana. Por exemplo, implantar chips no corpo ou injetar substâncias nos olhos é interventiva. Todavia, usar luz azul ou jejum prolongado para aumentar a energia ou “curar” doenças, segundo acreditam, é não interventiva.

Em 2019, um documentário do Netflix, chamado “Seleção Artificial”, mostrou Biohackers utilizando a técnica de edição epigenética CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) para “cortar” o DNA e, até mesmo, promover rearranjos genômicos capazes, segundo biohackers,  de curar doenças ou criar “seres humanos perfeitos”. O documentário é muito bom e, ao mesmo tempo, perturbador (vejam para entender).

A partir de 2020, surgiu uma série sobre o assunto: “Biohackers”. Na série, que só vi a primeira temporada, uma jovem chamada Mia Akerlund (interpretada por Luna Wedler) acaba de entrar para a faculdade de Medicina, onde conhece alguns amigos “nada convencionais” (biohackers), digamos assim. Ela é fascinada pelos estudos de biotecnologia, onde existe um “conflito de interesse” com sua professor Tanja Lorenz (interpretada por Jessica Schwarz). Tanja é uma renomada biocientista (e biohacker), mas aí você precisa olhar a série para entender. Aliás, a série também fala da técnica CRISPR. Na minha visão, esperava mais da série, porém me parece uma “série adolescente” com poucas informações técnicas, embora nos ajude a entender um pouco mais sobre os perigos da biotecnologia para humanidade.

 

Enfim, deixa-me retomar a história do ex-pugilista Dana White:

 

White diz seguir as orientações do biólogo e biohacker Gary Brecka, mas quem é o “mentor” intelectual do ex-pugilista?

 

Segundo site do autor (www.garybrecka.com), Gary Brecka é um biohacker, biólogo (Graduado pela Frostburg State University) e cofundador da 10X Health System, com sede em Miami, que busca capacitar pessoas a se tornarem a melhor versão de si mesmas (como assim?). Ainda, segundo Gary, ele trabalhou com especialista em modelagem de mortalidade no setor de seguros de uma empresa (passou da empresa de seguros para biotecnologia anti-aging?), mas largou tudo para se dedicar ao estudo das melhores maneiras de otimizar a vida e interromper o processo de envelhecimento humano (e podemos interromper o processo natural e irreversível de envelhecimento humano?).

Existe uma grande polêmica envolvendo Gary, que já foi acusado de possuir um empreendimento fraudulento que cobra caro e não entrega resultados. Contudo, quero me deter ao fato de jejum com água para viver mais e melhor, curando doenças graves (e não as “fofocas” que você pode procurar sozinho).

 

O JEJUM DE ÁGUA PODE REDUZIR SIGNIFICATIVAMENTE O RISCO DE CÂNCER, ALZHEIMER E UMA SÉRIE DE PROBLEMAS DE SAÚDE?

 

Vejamos o que diz a ciência:

 

A restrição calórica ou jejum pode exercer alguma ação anticarcinogênica em estudos pré-clínicos (realizados antes dos ensaios clínicos propriamente ditos com intuito de avaliar um potencial efeito terapêutico específico ou novo medicamento, geralmente realizados in vitro ou animais), afinal você não fornece “alimento” à célula ávida por nutrientes em virtude do crescimento acelerado e descontrolado. Legal, não é mesmo? Porém (rs), existem três problemas aqui:

 

PRIMEIRO, não existem ensaios clínicos randomizados que confirmem tais benefícios;

SEGUNDO, a restrição calórica mostra algum efeito somente em experimentos com animais e não podemos extrapolar facilmente para seres humanos, enquanto que outros estudos mostram metodologias questionáveis e resultados controversos;

TERCEIRO, torna-se impossível sustentar um jejum apenas com água para pacientes graves, como um quadro clínico de câncer, devido caquexia do câncer.

 

Com base nisso, aconselho as seguintes leituras:

CA Cancer J Clin 71(6):527-546, 2021 (doi: 10.3322/caac.21694);

Recent Results Cancer Res 207:241-266, 2016 (doi: 10.1007/978-3-319-42118-6_12);

PLOS One 11;9(12):e115147, 2014 (doi: 10.1371/journal.pone.0115147).


PERAÍ, não terminei:

 

Existe um estudo de jejum somente com água em pacientes com câncer (Gynecol Oncol 159(3):799-803, 2020; doi: 10.1016/j.ygyno.2020.09.008). Neste estudo, mulheres com neoplasias ginecológicas receberam os ciclos de quimioterapia e deveriam manter o jejum, somente consumindo água, de 24h antes e 24h depois (portanto, 48h) dos procedimentos. Quais foram os resultados? Não houve diferença significa nos escores de qualidade de vida, embora o jejum foi bem tolerado sem grandes perdas de peso, internações hospitalares ou retardar a dose de quimioterapia.

OK, OK, OK, qualquer afirmação de jejum com água para curar o câncer é, portanto, pura especulação (se você for profissional de saúde, é um ato antiético e criminoso). E para outras doenças, o jejum com água ajuda?

 

Vejamos uma busca no PubMed:

 

Usando como descritores “Water only fasting” (jejum somente com água) aparece apenas 1 resultados: Glob Adv Health Med, 2021 (doi: 10.1177/21648561211031178). Neste trabalho, 12 homens, adultos, foram submetidos ao jejum com água por 8 dias. Como resultado, os indivíduos perderam peso, houve cetogênese, hiperuricemia, redução da glicemia e hiponatremia. Os autores concluíram que manter o jejum por mais dias, em decorrência dos efeitos metabólicos, seria prejudicial à saúde.

 

Que loucura, não é mesmo? Peraí, tem mais:

 

Vamos tentar refinar a pesquisa usando “Water only fasting and Alzheimer”. Neste caso, nenhum resultado é obtido. Ou seja, não existem estudos neste sentido e, portanto, não faça “pseucociência” extraindo informações (falsas ou equivocadas) de sua “mente criativa”.

 

E se optar por restrição calórica, apenas?

 

HUMMMM, aí apareceu Eur J Nutr 62(2):573-588, 2023 (doi: 10.1007/s00394-022-03036-1). Segundo autores, a restrição calórica reduz o peso corporal e aumenta a expectativa de vida em modelos animais, que também parece regular o desenvolvimento e progressão de algumas doenças neurológicas, incluindo epilepsia, acidente vascular cerebral (AVC), Alzheimer e Parkinson, porém se desconhece o mecanismo para tais efeitos. Peraí, trata-se de um estudo com modelos animais e você realmente quer usar este estudo para estabelecer protocolos ou procedimentos para seres humanos? Peraí, alguma metanálise? Peraí, algum ensaio clínico randomizado e controlado? Não, não existem resultados! Traduzindo: seu achismo e pseudociência pode ser “engraçadinho”, mas, na realidade, é prejudicial à saúde das pessoas.


 PROFESSOR, OS BIOHACKERS PODEM CRIAR SUPER-HUMANOS?

 

Algumas pessoas acreditam que podem hackear o corpo e a mente das pessoas na tentativa de criar “super-humanos”, mas se seu conceito de “super-humanos” são personagens da Marvel Comics, com poderes especiais, capazes de combater todo o mal do planeta Terra, então deixa te falar uma coisa: Isto Non Ecziste!

 

O que podemos chamar de “super-humanos” (embora eu não goste deste termo) faz referências às pessoas, determinadas pessoas, quem possuem capacidades físicas e mentais extraordinárias. Alguns tornam-se excelentes atletas, enquanto que outros habilidosos matemáticos. Outros, simplesmente, conseguem viver mais sem apresentar doenças (pessoas centenárias e supercentenárias). Para todos estes casos, a ciência diz existir uma espécie de “componente genético”, embora outros cientistas dizem que tais “genes” sofrem influências comportamentais, ambientais e fisiológicas. Em outras palavras, esses “super-humanos” não são resultados de manipulações genéticas, mas, sim, provavelmente foram criados dessa forma. Eles não são melhores ou piores do que nós, mas apenas diferentes.

 

Falando em viver mais, deixa-me contribuir:

 

É POSSÍVEL INTERROMPER OU RETARDAR O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO HUMANO COM BIOTECNOLOGIA BIOHACKING?

 

A “galera” do anti-aging (antienvelhecimento) diz que sim, ou seja, que podemos retardar ou desacelerar o envelhecimento com procedimentos estéticos, dieta detoxificante, modulação hormonal sintética e bioidêntica, suplementação nutracêutica funcional e exercício físico. Os biohackers, portanto, estão “surfando” facilmente nesta onda e prometem “vender dias de vida”, futuramente. Já a “galera” da medicina baseada em evidência (MBE) diz que não, pois não podemos retardar ou desacelerar um ciclo natural da vida.

 

Eu, por sua vez, perguntaria:

Como podemos medir o envelhecimento biológico e, dessa forma, saber se a estratégia X ou Y funciona? Quero dizer, opinião pessoal ou discurso de autoridade não me serve, cadê as provas científicas?

 

Em outras palavras:

Você pode medir o envelhecimento “apenas” e “unicamente” pelos cabelos brancos ou presença de rugas que uma pessoa deixou de ter?

Você pode medir o envelhecimento apenas pela redução nas taxas hormonais (estrógenos, testosterona, T3/T4, GH ou IGF1)?

Existe um marcador biológico que pode ser mensurável para avaliar o processo de envelhecimento humano?

 

Sim, o assunto é polêmico, onde as pessoas tentam entender e explicar:

 

Em 2012, um estudo abordou a “Lei da Mortalidade” ou “Lei de Gompertz”, que explicava o envelhecimento matematicamente. As variáveis dessa equação eram as forças da natureza (processo intrínseco, decorrente de processos fisiopatológicos) e fatores extrínseca (acidentes, desastres naturais, predadores, suicídios, envenenamento, etc.). Experimentos posteriores mostraram falhas nessa teoria (Sitientibus Série Ciências Físicas 08: 1-10, 2012), o que descredibilizou o estudo matemático.

Em 2017, outro estudo dizia que é “matematicamente impossível interromper o envelhecimento”, onde algumas células inevitavelmente perderão suas funções, enquanto outras irão acumular mutações potencialmente perigosas (Intercellular competition and the inevitability of multicellular aging. Proc Natl Acad Sci USA 5;114(49):12982-12987, 2017).

Em 2019, surgiu o documentário do Netflix “Seleção Artificial” (que falamos anteriormente), mostrando biohackers utilizando a técnica de edição epigenética CRISPR para “cortar” o DNA e, até mesmo, promover rearranjos genômicos capazes de curar doenças ou criar seres humanos perfeitos.

Finalmente, em 2022, um estudo relatou ser possível medir o processo de envelhecimento observando a metilação e desmetilação do DNA nuclear (A pan-tissue DNA-methylation epigenetic clock based on deep learning. Japanese Society of Anti-Aging Medicine 8:4, 2022). E, novamente, cientistas e pesquisadores criticaram a hipótese e argumentos empregados, deixando mais uma “pulga atrás da orelha”.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), por sua vez, diz que faltam evidências científicas que justifiquem a prática da medicina antienvelhecimento, ou anti-aging. Essa é a conclusão do CFM após extensa revisão de estudos científicos na literatura.

Enfim, eu já falei disso aqui no Blog (13/07/2022) sob título: É POSSÍVEL RETARDAR O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO HUMANO COM MODULAÇÃO HORMONAL?


 PROFESSOR, EXISTE ALGUMA RELAÇÃO ENTRE BIOHACKERS E NUTRIÇÃO ESPORTIVA?

 

AHHHH, SIMMM, quase estava esquecendo de falar disso:

 

Embora os objetivos primordiais dos biohackers pareçam nobres (evitar ou curar doenças; viver mais e melhor ou prolongar a vida; ter um corpo forte e atraente; melhorar a mente ou atividade cerebral), as estratégias estão equivocadas, são falsas ou completamente distorcidas da realidade, pois simplesmente NÃO POSSUEM RESPALDO CIENTÍFICO.

Na nutrição esportiva, especificamente, qual objetivo de fazer os pacientes gastarem verdadeiras fortunas com alimentos mirabolantes e exóticos ou “entupir” os mesmos com combinações de vitaminas, minerais e oligoelementos, muitos em megadose, se NÃO TEM QUALQUER NÍVEL DE EVIDÊNCIA CIENTÍFICA?

Qual estudo científico comprova a combinação de manipulados contendo manganês, magnésio, cobre, selênio, N-acetilcisteína (NAC), coenzima Q10 e vitamina C para curar todos os males das pessoas, devido “alto” pode antioxidante?

Qual paper confirma suas prescrições com excesso de vitamina D, E, K2 e resveratrol?

Curcuma longa combinado com chá verde, adicionado de licopeno e quercetina, pra quê? De onde tirou tais combinações (isso que nem falei das dosagens)?

Por que você fecha “pacotes” de prescrições manipuladas “sem pé, nem cabeça”? Me adira, até certo ponto, algumas farmácias de manipulações aceitarem tais “aberrações” sem qualquer discussão ou contraponto, não acha?

É tudo junto e misturado de tal forma que me pergunto: teve aulas de bioquímica e interação entre nutrientes, criatura?

Os objetivos aparentemente nobres, portanto, se perdem facilmente quando “biólogos de garagem”, ou melhor, “nutris de boteco”, criam protocolos baseados em opinião pessoal e achismo.  

Aliás, seria melhor dizer algo que li estes dias, mais ou menos assim:

As pessoas são suficientemente ricas para gastar dinheiro com bobagens; tolas o bastante para acreditar em curas milagrosas e estratégias mirabolantes sem respaldo cientifico; e medrosas para assumir as rédeas de suas próprias vidas para evitar a doença e morte precoce.

Então não, não, você não é um biohacker! Sua formação é nutricionista!!!

 

A grande pergunta que fica seria:

 

BIOHACKING É UMA REVOLUÇÃO BIOTECNOLÓGICA MARAVILHOSA OU UMA AMEAÇA À HUMANIDADE?

 

Provavelmente retomarei este assunto, mas deixo algumas reflexões:


Manipular microorganismos, incluindo bactérias, pode ser um caminho para curar doenças ou um caminho para criar superbactérias resistentes que acabaram com a humanidade?

Manipular o DNA das pessoas pode ser interessante para evitar doenças antes mesmo do nascimento ou pode criar “criaturas” e novas doenças jamais vistas na humanidade?

Os biohackers estão interessados em curar doenças e prolongar a vida ou se tornarem terroristas que trabalham de forma obscura para determinados governos?

Se o objetivo é prolongar a vida e otimizar o corpo e a mente, então porque criar ratos verdes e brilhantes no escuro, novas raças de cães grandes e ferozes, animais com 2 cabeças e 3 pernas?

Os biohackers querem aprimorar a raça humana ou criar a fantasia infantil de criar mutantes, super-heróis da Marvel: Hulk, Capitão América, Visão, Thor, Doutor Estranho ou Loki?

Quem garante, seguindo nessa linha de pensamento criativo, que não seresmos hackeados sem autorização? Neste sentido, como funcionaria a cibersegurança?

Se algo der errado, poderemos reverter a “bocabertice” de um biohacker? Ou seja, é possível criar livremente, inventar sorridente e hackear pessoas sem medir as consequências para o presente e futuro? 


Abraços e, caso queira compartihar, favor citar a fonte: Prof. Joelso Peralta - Blog: peraltanutri.blogspot.com 


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

ORTOREXIA: OBSESSÃO POR ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

ORTOREXIA: OBSESSÃO POR ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL


JOELSO PERALTA, Nutricionista, Mestre em Medicina: Ciências Médicas e Doutorando: PPG Farmacologia e Terapêutica - UFRGS.

 



Olá pessoal, tudo bem?

 

ORTOREXIA é um distúrbio alimentar de quem tem obsessão por alimentação saudável, onde alguns alimentos são considerados “impuros”, “impróprios para consumo”, “tóxicos” ou “venenos”.

 

E porque precisamos falar deste assunto?

 

Pois bem, a influenciadora russa Zhanna Samsonova, mais conhecida como Zhanna D'Art, de 39 anos, morreu recentemente, em julho de 2023, cujo noticiários apontam que ela seguia uma dieta exótica e radical, baseada em alimentos crus, que teria deixado a moça doente. Zhanna D'Art ficou famosa por se alimentar somente com alimentos crus, onde o cardápio tinha frutas exóticas, sucos e smoothies, basicamente. 

Segundo noticiários, a influenciadora não ingeria nem mesmo água, pois acredita que tinha tudo que precisava em seus sucos de frutas e vegetais. Amigos e parentes relatavam que a moça parecia fraca, muito emagrecida, anorética, com pernas inchadas e tinha linforréia (distúrbio onde ocorre vazamento de fluido linfático a partir da superfície da pele). 

Em seu perfil no Instagram, com 27,2 mil seguidores, a influenciadora deixava claro que era Chef de “comida vegana crua” e, dessa forma, exibia suas receitas geralmente baseadas em frutas e vegetais crus.

 

A influenciadora tinha diagnóstico de ortorexia?

 

Não, não sabemos. E, justamente por isso, precisamos falar deste assunto, pois logo você vai entender.

 

Todavia, antes de continuar, preciso fazer cinco (05) comentários rápidos e necessários:

 

PRIMEIRO, a causa da morte não foi confirmada, embora suspeita-se de “infecção semelhante à cólera”. Cabe destacar, portanto, que os alimentos crus devem ser higienizados adequadamente para evitar intoxicações alimentares. Sendo assim, qualquer associação da morte com dieta “extrema” é meramente especulativa.


SEGUNDO, não sabemos se a moça tinha transtornos alimentares (TA) e, se sim, tratam-se de distúrbios comportamentais que requerem tratamento médico. Amigos e parente relatam possível anorexia da influenciadora e, neste sentido, a ANOREXIA NERVOSA possui critérios diagnósticos através do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders-5) da American Psychiatric Association (AHA). Em outras palavras, a raiz do problema não está exatamente na dieta! De qualquer forma, sentimentos à família e respeito aqueles que necessitam de auxílio e acompanhamento clínico.

 

TERCEIRO, os noticiários fizeram uma “salada de frutas”, por assim dizer, ao noticiar a morte da influenciadora. Sendo assim, não faça confusão com as terminologias, pois não são sinônimos. Deixa-me elucidar rapidamente:


Dieta vegetariana (vegetarianismo) é uma alimentação baseada no consumo de alimentos de origem vegetal, podendo ser ovo-lacto-vegetariano, lacto-vegetariano, ovo-vegetariano e vegetariano estrito (veganos). Aliás, as dietas veganas excluem todos os produtos de origem animal, onde o veganismo é um movimento no sentido de evitar a exploração e crueldade contra os animais, seja no campo da alimentação, vestuário/vestimenta e outras esferas do consumo, segundo a Sociedade Brasileira de Vegetarianismo (https://sbv.org.br). Dieta frugírova (frugivorismo) é uma alimentação baseada no consumo de frutas, preferencialmente in natura, complementando a dieta com hortaliças e oleaginosas. Já dieta crudívora (crudivorismo) é uma alimentação baseada no consumo de alimentos naturais, crus, não cozidos e não processados. Sua variação permite laticínios, ovos e peixes, desde que cozimento seja inferior a 45ºC (The Journal of Nutrition 135(10): 2372-2378, 2005).

 

QUARTO, anorexia, bulimia, obesidade e vigorexia são transtornos alimentares (e de imagem corporal), mas pouco se fala de ORTOREXIA. Por isso, vamos falar deste assunto!

 

QUINTO, muitas pessoas sofrem da “Digital Influencer Syndrome” (ou seja, Síndrome do(a) Influenciador Digital, que acabei de inventar, mas faz todo sentido). Explicando: essa síndrome (que inventei) acomete pessoas não graduadas em nutrição, mas que acreditam que podem “influenciar” outras pessoas quanto aos hábitos alimentares e, por vezes, prescrevendo planos alimentares. É bom lembrar que a prescrição dietética é uma atividade privativa do(a) nutricionista amparado por Lei Federal nº 8.234 de 1991. Além disso, a maioria das informações sobre nutrição, saúde e exercício físico, nas mídias sociais, não são fontes seguras de informação, segundo International of Enviroment Research and Public Health 17: 9022, 2020.

 

Feito as considerações iniciais, vamos falar de ORTOREXIA.

 

ORTOREXIA (orthós, correto; orexis, apetite) foi o termo criado pelo Dr. Steven Bratman, em 1997, em seu livro “Health Food Junkies” (tradução livre: Viciados em Comida Saudável). Segundo Dr. Bratman, trata-se de um distúrbio alimentar de quem tem obsessão por alimentação saudável, onde alguns alimentos são considerados “impuros”, “impróprios para consumo”, “tóxicos” ou “venenos”. Dessa forma, estes alimentos “impuros” devem ser totalmente eliminados da alimentação (Agnieszka Decyk and Maja Księżopolska. Orthorexia nervosa - the border between healthy eating and eating disorders. 73(4): 381-385, 2022).

 

Em um primeiro momento faz todo sentido, pois argumentam que estão eliminando da dieta os corantes, conservantes, pesticidas, agrotóxicos e gordura trans, além do açúcar, adoçantes e sal. O consumo de alimentos “limpos”, “puros”, também exige a eliminação de carnes, ovos e laticínios da dieta.

 

Por outro lado, os seguidores da dieta “limpa” passam muitas horas do dia pensando no “cardápio saudável” e tornam-se antissociais. Também existe um cuidado em demasia com utensílios utilizados na preparação dos alimentos, análise da rotulagem nutricional e, claro, tornam-se “chatos” através da observação e comentários sobre a forma e a maneira como as outras pessoas se alimentam. Para o Dr. Bratman, a busca de uma alimentação saudável extrapolou os limites, tornam-se, na realidade, uma obsessão.

 

Todavia, é difícil diagnosticar ortorexia, pois não existem critérios definidos no DSM-V. E, dessa forma, a obsessão por “alimentação saudável” invadiu as mídias sociais, incluindo Facebook, Instagram, Telegram e Twitter. Nestas redes sociais, cujo proprietário(a) muitas vezes não são profissionais nutricionistas, apresentam pratos, sucos e smoothies coloridos. Por vezes, os atraentes pratos apresentam frutas e vegetais exóticos, onde se desconhecem suas propriedades fitoquímicas. Não importa, são bonitos, atraentes, chamativos e, segundo influenciadores, são ricos de nutrientes e princípios ativos naturais (bioativos), além de pouco calóricos.  

 

Vejam: é muito fácil derrubar argumentos descabidos do tipo “leite inflama”, “frutose causa esteatose hepática” ou “proteína causa lesão hepática”, porém como você consegue derrubar que um prato repleto de frutas e legumes, tão colorido e bonito, pode ser prejudicial à saúde quando se torna a única fonte de nutrientes da dieta? Em outras palavras, você não pode simplesmente dizer para as pessoas não comer frutas e legumes, mas precisa argumentar que ortorexia nervosa é um transtorno alimentar, caracterizado pelo foco obsessivo em uma alimentação “saudável” e inflexibilidade na dieta, que acarreta prejuízos na vida de relação, psicossocial, e saúde (Sanjay Kalra et al. Review J Pak Med Assoc 70(7): 1282-1284, 2020).

 

Ao mesmo tempo, a prevalência de ortorexia na sociedade varia de 1% a 60%, segundo Mateusz Gortat et al. (Orthorexia nervosa - a distorted approach to healthy eating. Review Psychiatr Pol 30;55(2): 421-433, 2021). Aliás, as pesquisas nos últimos 10 anos mostram que o número de pessoas que enfrentam o risco de ortorexia está aumentando, porém com o diagnosticar estes indivíduos? Existem algumas tentativas de estabelecer protocolos diagnósticos para ortorexia (Hellas Cena et al. Definition and diagnostic criteria for orthorexia nervosa: a narrative review of the literature. Review Eat Weight Disord 24(2): 209-246, 2019). Neste sentido, o questionário ORTO-15 (Antoni Niedzielski and Natalia Kaźmierczak-Wojtas. Prevalence of Orthorexia Nervosa and Its Diagnostic Tools-A Literature Review. Review Int J Environ Res Public Health 18(10): 5488, 2021) é uma ferramenta comumente mencionada. Porém, quem é o especialista para reconhecer o transtorno e como separar o resultados falso-positivos?

 

Enfim, a obsessão por alimentação saudável não parece ser uma novidade, porém com a advento das mídias sociais este fato parece estar aumentando, onde a hiperinformação (excesso de informação) não significa exatamente qualidade de informação sobre saúde, nutrição e exercício físico. Muitas decisões que tomamos frente a comida, por exemplo, são influenciadas por terceiros e, por vezes, nem percebemos. Neste sentido, como você pode filtrar uma informação falsa (FAKE NEWS) de outra verdadeira (FATO) se você é leigo na ciência na nutrição?  

 

Gostou da informação? Sinta-se à vontade de compartilhar, deste que citada a fonte (Blog: www.peraltanutri.blogspot.com). Siga-me, também, nas redes sociais (Face: Joelso Peralta; Instagram: @peraltanutri). Para maiores informações, incluindo cursos, palestras ou debates, segue e-mail: joelsoperalta@hotmail.com.